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"A Universidade de hoje se parece com o Brasil real"

No Rio, calcula-se que sejam cerca de 400 os pré-vestibulares comunitários. No Brasil inteiro, em redor de 2 mil. Para um movimento que tem menos de 20 anos, um crescimento impressionante.

- Parece que as pessoas, não importa a posição social, estão se dando conta da importância da educação na vida de um indivíduo – declara Luiz Fernando Cavalcanti, atualmente aluno de Administração na PUC-Rio, que se lembra de ser o primeiro entre seus conhecidos a estudar em um pré-vestibular comunitário (o PECEP, que funciona na Escola Parque, na Gávea). Em pouco tempo, na igreja que ele freqüenta as pessoas começaram a participar, os porteiros dos prédios vizinhos se tornaram alunos, e o movimento virou notícia de TV, assunto de encontros acadêmicos e tema de monografias e dissertações de mestrado.

Pesquisa
Em pesquisa premiada com uma Menção Honrosa pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Luiz Fernando desenvolveu, durante 18 meses, uma análise da organização do PECEP em comparação com outros cursos comunitários da cidade do Rio de Janeiro.

Ao todo, o pesquisador acredita que sejam mais de 100 mil alunos beneficiados por essas instituições, algumas muito bem organizadas, trabalhando em rede e produzindo sua própria apostila. Como era de se esperar, as organizações localizadas nos bairros do subúrbio carioca têm maior dificuldade devido à má infra-estrutura, escassez de material didático e de recursos audiovisuais.

O principal problema enfrentado pelos pré-vestibulares comunitários é a evasão de alunos, queixa de 90% dos cursos. “As dificuldades são tantas que é muito fácil para o aluno se sentir desestimulado”, diz Luiz Fernando.

O pesquisador defende que há uma correlação direta entre a existência de processos decisórios estruturados (um modelo de gestão definido) e os resultados alcançados em termos de aprovação.

- Com a definição de estratégias e diretrizes, os coordenadores sabem para onde estão conduzindo o projeto, estimulando os professores a serem atuantes e motivados, isto é, a prestarem um serviço melhor – ensina.

Tudo isso, por sua vez, interfere na motivação do aluno. Assim, aos alunos resta uma opção muito especial: aproveitar este ambiente dinâmico e fértil e fazer sua parte.

- Costumo dizer que o aluno precisa ler, escrever, pensar e tirar dúvidas com os professores. É isso que irá definir o desempenho de um aluno ou de um pré-vestibular em termos de aprovação. Mas vejo que um processo decisório estruturado e participativo sustenta tudo isso –salienta o pesquisador.

Mudanças
Até que ponto os pré-vestibulares comunitários podem mudar a sociedade? Para Luiz Fernando, o movimento surge, a princípio, para amenizar uma situação trágica no que diz respeito à educação, com o ensino público seguindo uma curva de decadência. Surge também para sinalizar esta situação, deixando claro que as condições para a disputa de uma vaga na universidade são desiguais. E, principalmente, surge para mostrar que este estado de coisas precisa mudar. A boa notícia: os resultados obtidos parecem mostrar que a possibilidade de mudança é real. Ele exemplifica:

- A adesão da PUC, este centro disseminador de conhecimento, ao movimento dos PVCs tem provocado mudanças perceptíveis. Até alguns anos atrás, podia-se dizer que a universidade parecia com Beverly Hills ou o Estado de Israel. Atualmente, parece até um pouco com o Brasil!

Quando alunos de cursos comunitários passam no vestibular e entram para a PUC, tornando-se bolsistas (“o trabalho que os padres estão fazendo com relação à bolsa é inacreditável”, elogia), Luiz Fernando diz não perceber “nenhuma discriminação, nenhuma panelinha”.

- Parece que os playboys da Zona Sul estão se conscientizando da necessidade de ações que incentivem o ingresso de bolsistas. Apenas um colega, um caso isolado, comentou: “Talvez essa entrada maciça de bolsistas explique o declínio do nível do ensino na PUC”. Felizmente, essa não é a visão geral nem dos alunos, nem dos professores. Além do mais, se fizermos um levantamento, não creio que as notas mais baixas sejam as dos bolsistas – analisa Luiz Fernando, ainda acrescentando:

- As pessoas carentes hoje estão acreditando mais na possibilidade de terem sucesso, de conseguirem entrar para a universidade. Elas estão apostando alto, e essa é uma mudança significativa. Isto fica evidente na própria mudança do perfil dos cursos procurados por bolsistas: antes, carreiras como serviço social, letras; agora, cursos com maior prestígio social e, portanto, mais concorridos, como engenharia, comunicação, etc.

Conselhos
Que conselho Luiz Fernando daria para alguém que quer abrir um pré-vestibular comunitário? Se este é o seu caso, preste atenção nas quatro “regras de ouro” que o pesquisador propões:

(1) um grupo de pessoas (podem ser duas ou três) realmente comprometidas com o propósito;
(2) as principais atividades devem ser feitas em grupo, com todo o grupo participando das decisões;
(3) parcerias sólidas relativas à provisão de instalações e material (infra-estrutura);
(4) um esforço de comunicação externa eficiente e inteligente para atrair voluntários que formem o quadro de professores e que participem de outras comissões com funções específicas.

A partir desta base, podem ser desencadeadas outras ações mais complexas: definição clara do modelo de gestão (com patrocínio ou auto-gestão financeira); criação de documentos que consolidem a identidade do projeto através do registro das ações e decisões anteriores (coerência de ação); formas de disseminação da informação permitindo que todos fiquem cientes dos acontecimentos e propostas; criação de uma ONG, a partir de um projeto comunitário, já com uma identidade e toda uma história de realizações, o que pode oferecer muitas vantagens em termos de investimentos de recursos provenientes de parcerias.

Por Teresa Ottoni


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