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Eles chegaram lá

Wallace e Fernando têm muito em comum: ambos moram no Vidigal, passaram por um ensino básico repleto de deficiências e estudaram no VETOR em 2003. No entanto, a semelhança mais relevante entre eles reside em algo mais profundo: os dois simbolizam um novo momento na história de suas famílias (e, em grande medida, em alguns dos círculos sociais que freqüentam). Eles decretaram o fim de uma série de gerações familiares que interrompia os estudos, na melhor das hipóteses, ao concluir o Ensino Médio. Hoje, Fernando faz Informática na PUC-Rio e Wallace estuda Ciências Contábeis na UFRJ. Mas por que isso é tão significativo?


Círculo vicioso
A história da educação no Brasil produziu um cenário desolador, cujos personagens parecem estar sempre com os papéis trocados. Aqui, o Ensino Médio e o Fundamental, quando gratuitos, são de péssima qualidade (as exceções são raras), enquanto o Ensino Superior público supera, quase sempre, as universidades privadas. O resultado é um círculo vicioso que reproduz a pobreza e impede a ascensão social – ao menos pela via mais comum do estudo e emprego.

A boa notícia é que, de uns 20 anos para cá (e com muito mais intensidade nos últimos cinco anos), uma onda de cursos comunitários de pré-vestibular chegou decidida a fazer diferença nesse cenário. A estratégia era atacar o ponto nevrálgico do sistema, desatar seu nó mais apertado: exatamente a passagem para o antigo 3º grau, onde uma multidão de alunos costuma ver frustrados seus planos de continuar os estudos. E é aí que entram o Wallace e o Fernando. Por trás desses dois nomes e de muitos outros, estão histórias de pessoas que conseguiram escapar do círculo vicioso e hoje freqüentam algumas das melhores universidades do Brasil. O que, convenhamos, não é pouca coisa.

“O crânio”
Wallace é Wallace Tomé Oliveira, 25 anos, atualmente aluno do curso de Ciências Contábeis da UFRJ. Até o ano de 2003, porém, ele acumulava as atividades de vestibulando com o emprego de contínuo em uma imobiliária. Com o pouco tempo para estudar somado a uma formação deficiente nas séries anteriores, o cenário estava montado para mais um caso de trajetória escolar precocemente abortada. Para piorar, a própria família via com uma ponta de receio a perspectiva de seu ingresso no Ensino Superior: “O medo dos meus pais era só um: que eu precisasse parar de trabalhar, caso o curso escolhido fosse durante o dia”.

A história, claro, teve final feliz – mas não sem uma dose de esforço. “Alguns conceitos de Física e Matemática, só fui aprender no VETOR. Por causa do trabalho, eu lia a matéria e fazia exercícios no ônibus.” No meio dessa odisséia, a falta de estímulo quase estragou tudo: “quando tirei E na primeira fase da UERJ, pensei seriamente em desistir. Sem dúvida, minha força de vontade foi essencial nesse momento”. O medo da família, a propósito, se concretizou: estudando no período da tarde, Wallace teve mesmo que largar o emprego. Valeu a pena?

“Cursar uma universidade é algo que pode mudar completamente a vida de qualquer um. É claro que vale”. Wallace sabe, no entanto, que tem percorrido uma trajetória pouco usual para muitos dos seus conhecidos. “Para a minha tia, homem que cresce no morro é bandido e mulher, vagabunda”. Ao se tornar o primeiro integrante da família a entrar numa faculdade, ele se despe com elegância do estereótipo e consegue até achar graça da situação: “Agora, muita gente lá no Vidigal só me chama de o crânio”, conta, às gargalhadas.

Variações sobre um mesmo tema
Se conhecessem o Fernando, os colegas de Wallace provavelmente inventariam para ele algum apelido análogo. E não é para menos: aprovado em Informática para a UFRJ e para a PUC-Rio, Fernando Freitas Silva, de 21 anos, também está vislumbrando horizontes que pareciam impensáveis para seus pais ou avós.

Diferente de Wallace, porém, Fernando não é o desbravador pioneiro da família no terreno minado do Ensino Superior. Dos seus cinco primos, quatro estão trilhando o mesmo caminho, e mesmo sua mãe chegou a começar uma faculdade, que não pôde terminar. A novidade agora é que a atual geração decidiu pôr fim, mais ou menos em bloco, à interrupção precoce dos estudos. Fernando representa toda uma geração que vem conseguindo romper o apartheid social imposto pelo sistema educacional brasileiro.

É uma revolução e tanto. E ele garante que, para isso, contou com a ajuda do VETOR. “No Ensino Médio, acabei não estudando muitos assuntos: em Matemática, a parte de geometria; em Química, pilhas e voltagem; em Física, Movimento Circular”. E acrescenta: “o curso serviu também para que eu visse como é a prova de vestibular, já que às vezes o exame aborda um mesmo conteúdo de maneira muito diferente do que vemos no colégio. No VETOR, pude adquirir essa noção, já que as aulas são mais voltadas para o vestibular mesmo”.



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